Neste último sábado, dia 15, recebemos, aqui em Santa Rosa, o escritor, jornalista e cronista do jornal Correio do Povo, Juremir Machado. Ele participou da 7ª Feira do Livro, autografou sua publicação mais recente, “Vozes da Legalidade”, lançada pela editora Sulina e compartilhou conosco seu conhecimento de história em uma palestra no Projeto Resistência.
Aproveitei para conversar com ele, que também é coordenador do curso de pós-graduação em jornalismo da PUC em Porto Alegre. 

Por Ana Elisa Bobrzyk
Zykzira – Muitos jornalistas veteranos acham que a nova geração é arrogante e não exerce a profissão com a paixão que aqueles costumavam ter. Você concorda?
Juremir Machado: Bom, têm várias coisas, eu já estou mais pra velha geração do que para a nova geração, tenho mais de 25 anos de jornalismo, mas ao mesmo tempo eu tenho me visto em muitas coisas como se eu estivesse começando. Por exemplo, eu tenho apresentado um programa na rádio Guaíba e faço isso há um ano e meio.  Então me vejo como um novato na apresentação do programa de rádio.  Como eu não tenho a vivência de redação pois, na minha coluna do Correio do Povo, eu apenas mando o e-mail e não vou lá. Na rádio, eu vou todos os dias e sou visto como novo; no jornalismo, eu já sou velho.
Então o que eu vejo de toda maneira como professor, como coordenador de curso: Na entrada sempre foi assim, os novatos sempre são arrogantes, mas isso é uma característica das pessoas mais jovens, quando eu tinha 20 e poucos anos e comecei jornalismo eu era arrogante. Quando a gente é novo, tem convicções, tem certezas, acredita mesmo, vai fundo e quem não concorda, quem pensa diferente é idiota, mas isso é arrogância da juventude. É legal até ter uma certa segurança, uma autossuficiência. Depois tu negocias mais, tem mais pulso. Agora os mais velhos são muito nostálgicos. Esse negócio de que jovem não tem mais paixão é bobagem. É claro que tem paixão. E muita paixão. Às vezes, eu olho para os alunos meus ou ex-alunos que vão fazer a primeira entrevista, sei lá, com a Fernanda Montenegro, aquilo ali é uma realização, o cara vai tremendo, é uma paixão é uma emoção de quem está começando.
Os mais velhos costumam olhar pra trás e achar que tudo antigamente era melhor, que tudo era perfeito. Mas mudou em alguns aspectos: hoje em dia é mais profissional. Por exemplo, houve uma época em que os jornais fechavam e iam para a gráfica às cinco horas da manhã, então eles atrasavam, iam no bar beber, às duas da manhã voltavam pra terminar o jornal, isso não tem mais. Mas isso é uma questão industrial e comercial.
Z – Mas e a questão da técnica para escrever? Antigamente jornalistas usavam adjetivos, hoje todos devem seguir técnicas rigorosas.
J.M. – Sim, hoje é mais organizado, mais técnico, tem uma certa burocratização. Mas ao mesmo tempo, se a pessoa tiver talento, ela encontra espaço, pois hoje tem muito espaço para a opinião, o jornalismo de opinião está muito forte, ao contrário do que se dizia, o jornalismo de opinião não desapareceu. Tem muito colunista, o Zero Hora, por exemplo, tem uns 50 colunistas e cronistas. Então, tem espaço para a opinião, para o texto literário, grandes reportagens. E hoje tem a internet, é um novo suporte, dá pra fazer jornalismo na internet, pode ter textos maiores, mais literários. Então, nesse ponto, eu acho que continua tudo igual, no início a paixão, depois vem o desencanto, finalmente a amargura e depois o desemprego… (risos).
Z – Aproveitando o gancho sobre a opinião no jornalismo. Ela funciona muito diferente da notícia, a notícia acontece, mas passa. A opinião, as pessoas leem, processam e aquilo pode ser válido para a construção ou desconstrução das ideias. Você é um formador de opinião. Como você vê isso?
J.M. – Eu não gosto muito dessa expressão “formador de opinião”. Acho que as pessoas formam a própria opinião, pegam daqui e dali e vão formando. Eu dou a minha. Eu contribuo, mas não me sinto responsável de achar que alguém mudou de opinião por minha causa. Agora, só para diferenciar bem. Eu sempre dou um exemplo trivial, que é o do futebol. Eu sou comentarista de esporte e estou comentando um Grenal. Eu sou colorado. Mas, mesmo sendo um colorado, eu sou honesto. Posso reconhecer tranquilamente que foi pênalti a favor do grêmio. E a notícia é dizer: Foi pênalti a favor do grêmio. Independente de eu ser colorado. Se eu não conseguir fazer essa distinção, eu estou mentindo, eu estou sendo desonesto. Eu sei que foi pênalti, mas eu vou dizer que não foi? Aí é desonestidade. Então dar a notícia é vencer a própria parcialidade, a própria preferência pra dizer o que foi. E a opinião é pra dizer o que todos mais gostamos: dizer se é certo, é errado, é bom, é ruim. E tem muito espaço para a opinião hoje, no jornalismo.
E acho que vai aumentar muito ainda porque a notícia em si, a internet dá, o rádio dá, a televisão dá. Os jornais vão ser cada vez mais interpretativos, opinativos, porque o jornal é sempre um produto, um conjunto de notícias atrasadas e de tudo que saiu ontem. O que aconteceu agora, ninguém vai conseguir guardar até amanhã. Já está na internet. Já está no rádio, já está na TV. Então, o jornal impresso vai ser cada vez mais opinião e interpretação.
Z – Você já teve alguma crise profissional?
J.M. – Já tive muitas crises. Já parei e pensei: “poxa, fazer jornalismo é duro”. Está cheio de gente me mandando e-mail dizendo que eu sou um idiota. Então por que eu vou ficar fazendo isso pra ser chamado de idiota? Crise tem sempre e tem de todo tipo porque às vezes a audiência não é suficiente, o que a gente recebe não é suficiente, porque a interação não é a que se quer, a concorrência anda melhor. Todo mundo tem crise. A não ser que seja muito arrogante.
Z – O jornalismo, na minha opinião, costuma perpetuar discursos tradicionais, morais, comportamentais, etc. Você acredita que essa deva ser a função da profissão? Você acha que isso é um ato sadio do jornalismo?
J.M.– O jornalismo no Brasil é muito conservador. Muito moralista e muitas vezes demagógico. Porque ele faz uma crítica mais ferrenha, no lugar comum. Por exemplo, bater violentamente na corrupção. É fácil bater na corrupção, porque nenhum corrupto é a favor da corrupção, se tu perguntar pra ele. Então fica aquele discurso que dá ao jornalista o bom papel: “combatemos severamente a corrupção”, mas aí é fácil. Ou, por exemplo: “bandido tem que ir pra cadeia”, mas aí é fácil dizer isso. O problema é enfrentar outras questões mais delicadas, questões que são controvertidas, como a questão da sexualidade, combate ao preconceito com relação aos homossexuais, tematizar questões como o aborto, tematizar questões como as drogas, aquelas questões normalmente polêmicas e fazer discursos severos, pesados naqueles que não tem muito o que dizer em oposição, aí é fácil. É uma mídia conservadora e esperta que se apresenta como sendo muito crítica, mas só é crítica naquilo que não é controvertido.
Z – Existe, no código de ética do jornalista, a cláusula de consciência que escusa o jornalista de fazer matérias às quais agridam suas convicções…
J.M. – Nunca conheci ninguém que tenha feito isso.
Z – Mas essa é a questão, enquanto o código diz isso, os profissionais acreditam que o jornalista tem o dever de fazer todas as pautas que lhe cabem.
J.M. – Mas esse é seu emprego. Claro, que ninguém vai te pedir coisas extravagantes, para fazer uma pauta em favor da pedofilia. Mas pode pedir algo do tipo, pra fazer uma matéria dando uma força para o prefeito da cidade, ou para um bom patrocinador, isso pode acontecer, mas claro que isso não é dito de uma maneira tão explícita assim como eu estou te falando. Mas isso tem em qualquer profissão, não só no jornalismo.
Z – Então você acha que essa é uma cláusula inválida?
J.M.– Na verdade ela é redundante, é claro que cada pessoa deve agir de acordo com sua consciência. Mas, será que ela vai ser preservada no emprego? Essa é a realidade…
Z – Realidade do jornal, não é?
J.M. – Da vida, de tudo! Acho que o que acontece com o jornal é exatamente igual a tudo. Às vezes as pessoas dizem assim: os jornalistas não criticam seus patrões. Mas ninguém critica seus patrões publicamente. Nenhuma profissão tu podes dizer assim: eu vou fazer aqui uma crítica pública ao meu patrão.
Z – Então você concorda com o Noblat, que em seu livro “A arte de fazer jornal diário” chamou o jornalista que faz isso de burro?
J.M. – (Risos) Eu chamaria de suicida. Eu acho que a pessoa deve ter jogo de cintura. Você teria que ter uma certa astúcia. Se você trabalha numa loja, digamos, e lá só se vende coisas ruins. Mas ruins mesmo! E aí passa lá um repórter fazendo uma matéria sobre as lojas da cidade. Você não vai dizer que os produtos da loja são muito ruins. E se você disser isso, e logo depois te demitirem, você vai achar isso um absurdo?
Z – É aí que entra a história da crise profissional. Muitas vezes você vai lidar com ideias contrárias às suas.
J.M. – O jornalismo tem muitos mitos. É uma atividade como qualquer outra. A gente sempre acha que o jornalismo tem que cumprir uma missão, um sacerdócio, a busca da verdade acima de tudo. Sim, é. Mas também é um produto à venda. O jornalismo é um produto que você tem que fazer, tem que encontrar um comprador, um patrocinador, um leitor, um ouvinte, telespectador. Então tem uma série de situações, concretas, reais, práticas, que obviamente, te limitam, muitas vezes surgem essas coisas embaraçosas, que você tem que negociar. Não tem essa coisa da liberdade total e absoluta custe o que custar.
Z – Então, para você o jornalismo não está aí para mudar o mundo?
J.M. – O jornalismo pode dar a sua contribuição. Mas com certeza não é tarefa do jornalismo mudar o mundo. A tarefa de mudar o mundo é de todos nós. Mudar o mundo é tarefa da escola, dos políticos. O jornalismo ajuda a mudar o mundo, por exemplo, quando eles criticam os políticos por não mudarem o mundo, quando criticam a escola por não estarem ensinando bem. Mas eu não acho que seja tarefa do jornalista de mudar o mundo.
Z – E qual é a sua opinião sobre a questão do diploma jornalístico?
J.M. – Boa discussão! Excelente discussão! Por um lado, é fundamental ter um diploma universitário. Ainda que um ou outro possa não ter e fazer bem. O Lula foi um ótimo presidente da República e não tinha diploma universitário. Têm pessoas que são muito talentosas, muito inteligentes e podem passar sem. Para a maioria é muito bom, porque é uma formação, é uma construção de bagagem. Agora, será que precisa ser só o diploma de jornalista? Não poderia ser o de historiador? Não poderia ser o de sociólogo? Eu sou professor na faculdade de jornalismo. Acho que a faculdade ensina bastante, as faculdades são boas, a da PUC, em que trabalho é excelente, acho que ela cumpre seu papel. Agora também sou obrigado a me perguntar o seguinte: por que outros países não exigem o diploma universitário de jornalista? A maioria não exige. A França não exige, os Estados Unidos não exigem. Então porque só o Brasil exige? Isso eu me pergunto com honestidade, pode ser que nosso modelo seja original e seja bom. Mas eu me pergunto: por que só aqui? Eu acho que sem diploma é difícil. Tem que ter diploma universitário, mas acho que dá pra pensar alternativas, do tipo: diploma do curso de história mais uma especialização em jornalismo. Mas as faculdades cumprem um bom papel e realmente ajudam a formar bons jornalistas.
Z – Mas há também uma vontade de grandes empresas em manter o controle do discurso através dos jornais. Por isso, defende-se tanto o diploma?
J.M. – Não, a maioria dos empresários são contra a exigência do diploma porque querem contratar livremente. Querem ter esse poder de emissão, mas sabem que já perderam o controle, por causa da internet. Hoje, qualquer um pode ter um meio de comunicação, por exemplo, o facebook, o twitter. O que eles querem controlar agora é a internet, isso eles querem manter o controle. O que eu sou contra, porque a internet tem que ser absolutamente livre. Cada um que diga o que quiser e claro, se a pessoa cometer crime, por exemplo, de difamação, aí vai responder na justiça.
O jornalismo é isso: uma utopia, ao mesmo tempo que uma realidade bem menos deslumbrante.
Z – E você espera repercussão de seus artigos ou você escreve e joga para o mundo, sem muitas expectativas?
J.M. – Eu faço antes de tudo pelo prazer de fazer, mas espero repercussão sim. E isso realimenta. Dá motivação para fazer. Eu acho que quem escreve livros ou faz jornalismo sempre quer reconhecimento, senão perde um pouco o estímulo. Sem reconhecimento fica menos estimulante.
Prof. Maria Inês ao lado de Juremir Machado. Cortesia: Zulupa.com.br
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