Morin estava certo: repetimos muitas coisas que nunca ou poucas vezes paramos para pensar e refletir, mas que algum dia, alguém disse e nos pareceu interessante e então saímos por aí, espalhando aos quatro cantos. Quero citar uma expressão/ideia que muitos dizem, porém, está muito claro que não passa de um repeteco dos mais chulos: “com tanta criança passando fome, vocês ainda querem defender os animais”. É algo assim, com uma ou outra variação e que – pode apostar – aquele que não simpatiza muito com a causa, que acha frívola, trivial, imbecil, falta do que fazer ou irrelevante, acaba dizendo (fico até emocionada em saber o quanto tem gente preocupada com a causa infantil).

Então, vamos analisar a questão:
1 – Essa pessoa – que repete isso com todas as suas víceras e convicções – chega em casa, cansada de um dia de trabalho e de repente ouve gritos de sua vizinha. Ouve também alguns barulhos de pancadas e, logo na sequência, grito de algum cão. Mais gritos, mais gemidos, mais pancadas. Aproxima-se do muro que divide as residências e se depara com uma cena brutal. Logo percebe que se trata daquele cão nojento, fedido e barulhento da vizinha. Bom, qual será a reação desse indivíduo?

A) Fica aterrorizado com aquilo e tenta intervir ligando para a polícia, afinal de contas é um animal indefeso;

B) Lembra-se que tem muita criança passando fome naquele mesmo momento e seria uma grande ofensa a elas fazer qualquer coisa a respeito. Então, decide colocar um fone de ouvido ou ligar a televisão no volume mais alto e, de preferência, num programa bem animado para distrair a atenção;

C) Aproxima-se do muro da casa e fica observando a cena, pois acha muito divertido.

2 – Esse mesmo indivíduo, em outro dia qualquer, está na rua indo para seu trabalho e de repente é parado por um jovem distribuindo alguns folhetos. Ele veste uma camiseta escrita: “Preserve o verde”. O jovem pede para conversar com esse cidadão e explica que está fazendo um trabalho de conscientização para a preservação da natureza e meio-ambiente. No folheto, há várias dicas sobre como separar o lixo, como economizar água, etc. Como o indivíduo reage?

A) Decide parar, escutar e aceitar o folheto, afinal acha a causa muito nobre e acredita que devem existir pessoas que façam esse tipo de trabalho;

B) Lembra-se que tem muita criança passando fome naquele mesmo momento e acha um absurdo ter gente se preocupando com o meio-ambiente;

C) Pega o folheto, continua seu trajeto e, após virar a esquina, amassa e joga-o no chão.

Consegue perceber que esse argumento é absurdo, vazio, sem sentido e não passa de um repeteco leviano? Primeiro porque, como exposto na situação 1, é natural que haja reação/intervenção/sensibilização a cenários de maus-tratos aos animais, assim como há reação quando se vê uma criança indigente. Quem, porventura decide atuar em favor da causa, está apenas reagindo a fatos concretos, reais.

E qualquer pessoa que resolva fazer alguma coisa, mínima que seja, em relação aos animais não está excluindo de suas preocupações a causa do sofrimento de crianças. Não, gente, que conversinha!! Além disso, crianças não estão morrendo de fome porque tem gente preocupada em cuidar de animais. Sinto informar, mas os fatores são outros.

E depois, como exposto na situação 2, por que nunca ouvi ninguém falar a tal frase quando o assunto é natureza/meio ambiente? Não seria a mesma lógica de pensamento: “crianças morrendo enquanto tem gente cuidando de uma árvore”? Existe então uma hierarquia de militâncias? Devo eleger as mais importantes e ignorar aquelas em que não me afetam diretamente e materialmente? Em que não afetam meu bolso, minha família, meus filhos, minha saúde, etc?

E qual seria, portanto, aquela causa totalmente dispensável em que não afeta nem meu bolso, nem minha saúde, nem meu bem-estar aparente? Opa! Parece-me justamente a dos animais, já que qualquer sofrimento que os acometa será exclusivamente problema deles e não um problema social, consequência da falha no sistema de organização do ser HUMANO, algo em que cientistas sociais, por exemplo, devam preocupar-se em estudos e teses. Dá para entender agora porque os imbecis costumam dizer que é tão “indigno” e “banal” ser ativista dessa causa?

E outra, essas pessoas que vivem papagaiando por aí será que fazem alguma coisa? Crianças, animais, idosos, meio ambiente, mulheres?? Nada? Pelo menos se informam?

OBSERVAÇÃO: Eu sou a favor de todas as causas que tenham a intenção sincera de melhorar qualquer aspecto desse globo terrestre. E NÃO ACHO QUE ELAS SEJAM EXCLUDENTES.

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