Outro dia, entrei em um estabelecimento e percebi que havia, em um canto, três homens bebendo cerveja e fumando, sentados ao redor de uma mesa de plástico, daquelas de bar, numa boa. Nada de anormal se aquele local não fosse um estabelecimento comercial, uma casa de ferragens. Fui comprar pregos e saímos de lá, minha mãe e eu, rindo impressionadas com a situação.
Em outro momento, fui fazer orçamento em uma vidraçaria e, quando entrei, o local mais parecia uma casa: havia alguns sofás velhos, um bercinho bem no centro, brinquedos de criança por todos os lados e muita bagunça. Havia três mulheres conversando e cuidando dos pequenos (eram dois, se não me engano). Você tem que atravessar tudo isso para então enxergar a escrivaninha do escritório e as amostras de vidros.
Sabe-se que o comportamento das pessoas em cidade pequena é bastante peculiar, e isso se reflete no comércio e estabelecimentos de serviços tornando-os igualmente interessante. Pode ter certeza que em algum momento, as pessoas que te atendem vão dar um jeito de perguntar de onde você é – caso você não aparente ser da cidade.
Por exemplo, esses dias fui agendar consulta em um médico e sua secretária perguntou meu nome, identidade e… ‘você mora aqui em Cerro Largo?’ Disse sim, já não estranhando tanto o fato. Não me perguntou endereço, nem nada. Ela só queria saber de onde eu sou e incorporou a pergunta como se fizesse parte do agendamento.
Nesse notável município coisas como vender fiado são muito, muito comuns.E não existe muito rigor nas cobranças ou anotações das contas. Geralmente é anotado o primeiro nome e uma referência, como o local onde você trabalha. Sabe agenda de celular, em que o espaço é pouco para colocar o nome completo? Então, é mais ou menos assim. Muitas vezes, nem pedem assinatura da pessoa, para posteriormente comprovar que foi ela mesma que comprou. Claro que alguns estabelecimentos já se ligaram, estão modernizando suas lojas e fazendo um controle mais profissional das contas.
Outra: uma vez, chamei um senhor que corta grama e ajeita o pátio, deixa tudo bonitaço. Na casa onde eu morava, as grades eram baixinhas e não havia cadeado. Podia entrar no terreno quem quisesse. Então o chamei para fazer o serviço, ele foi em um momento em que eu não estava, cortou a grama e foi embora. Liguei no outro dia para saber como poderia pagá-lo e ele disse que passaria na minha casa quando desse. Bom, depois de um tempão, passei numa rua e lá estava ele podando as árvores de uma casa. Parei o carro e paguei a quantia devida. Ele me agradeceu, como se eu estivesse fazendo um favor! Comentei isso com uma amiga que me informou que isso também havia acontecido com ela, com esse mesmo senhor. Ele faz o serviço, e tipo, ‘caga’ para o pagamento!

Cerro Largo também tem outras particularidades: minha mãe estava aqui na cidade e queria fazer uns canteirinhos de flores no meu quintal, utilizando pneus cortados. Fomos na borracharia buscar os pneus. Chegamos lá, o cara foi super simpático com a gente, cortou os pneus e não cobrou um centavinho sequer. Hoje ela reclama porque tentou fazer isso em Santa Rosa (cidade maior, próxima de Cerro e onde meus pais moram) e os caras não cortam o pneu nem pagando! Minha missão agora é traficar pneus cortados de Cerro Largo a Santa Rosa.

 Assim como se vai em uma loja de ferragens tomar uma cervejinha, é bem comum ouvir os donos e donas das lojas falando: “passa aí qualquer dia tomar uns ‘mate com a gente”. É o mesmo que dizer: “passa aqui pra dar uma olhadinha sem compromisso”, só que muito mais acolhedor…
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