o-sol-tambem-se-levanta-2“- Oh! Jake – disse Brett. – Poderíamos ter sido tão felizes juntos!

[…]

– Sim – disse eu. – É sempre agradável pensar nisso.”

Assim termina O Sol também se Levanta, o primeiro grande romance de Ernest Hemingway, considerado pela crítica estadunidense como uma das principais obras do escritor. Lançado originalmente em 1926, o livro apresenta o cotidiano de um grupo de estadunidenses e ingleses exilados em Paris após a Primeira Guerra Mundial. Jake, Bill, Brett, Mike e Robert compartilham mesas de bar, emoções, e até mesmo amores. Jake é jornalista em Paris, Bill e Robert são escritores atualmente (Robert fora boxeador e ainda dono de uma revista), Mike é um milionário falido e Brett é a noiva de Mike que ama Jake e viaja até San Sebastián com Robert.

Todos os cinco estão em Paris. Na cidade luz, não fazem nada além de frequentar restaurantes e, sobretudo, bares e cafés. Bebem principalmente vinho, mas absinto e champagne também são apreciados. Os assuntos discutidos resumem-se ao sabor das bebidas, ao fato de alguns não gostarem de Paris e a beleza de Brett, quando a moça não encontra-se por perto.

“- Isso é que é um vinho! – Brett ergueu a taça. – Precisamos fazer um brinde: à realeza.

– Essa champanha é boa demais para brindes, querida. Não queria misturar emoções com um vinho como este. Perde o sabor.

Brett esvaziara a taça.” (p. 68)

Caso queria conhecer Paris, o livro de Hemingway funcionaria também como um excelente guia turístico, pois não faltam descrições dos locais frequentados pelo grupo. Além de Paris, pode ser um bom guia de Pamplona, na Espanha. A cidade onde realiza-se um festival anual de touradas, a fiesta, uma das grandes paixões de Jake. É ele quem convida todos para irem até o evento. Convite que é prontamente aceito.

Em Pamplona, a rotina do grupo não muda: noites usufruídas até o fim em bares cuja bebida – sobretudo o vinho –, são as principais companhias. Os assuntos do grupo também não diferem muito dos falados em Paris, acrescente-se o fato de todos estarem a par da ida de Robert e Brett à San Sebastián, fato que incomoda principalmente Mike, o noivo de Brett. Tal incômodo não se deve ao fato de Mike sentir ciúmes, sua implicância com Robert é devida à personalidade de ambos. Mike não entende o que Robert faz juntamente com o grupo, para ele, o escritor não tem espaço entre os amigos. Robert quase não bebe, pouco fala e parece sentir-se orgulhoso por todos saberem sobre sua viagem com Brett. Essas características incomodam Mike, que não poupa esforços para agredir verbalmente o ex boxeador.

Brett, a noiva de Mike que viajou com Robert mas que ama mesmo Jake, envolve-se, durante a fiesta, com o toureiro Pedro Romero, jovem de 19 anos por quem Brett acaba se apaixonando:

“– […] Estou louca por esse garoto Romero. Creio que estou apaixonada por ele.

[…]

– Não posso evitar. Estou perdida. Isso me dilacera, intimamente.” (p. 197).

A moça nunca se privou de viver as suas paixões, pois ainda encontrava-se legalmente casada quando se envolveu com Mike, e estando noiva de Mike, declarou seu amor por Jake e, ainda, viajou com Robert Cohn para San Sebastián. Brett chega, em alguns momentos, a afirmar que sente-se como uma prostituta, pois envolve-se amorosamente com vários rapazes. Ela claramente cede aos seus impulsos e não se priva de viver aquilo que tem vontade. Sua paixão por Romero leva a moça a viajar com ele após o término da fiesta, mas acaba quando Brett percebe que Romero tinha vergonha dela. A paixão da amada de Jake não resiste, e ela manda o jovem embora.

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A narração fica por conta de Jacob Barnes, ou Jake, como os amigos o chamam. Porém, o leitor só descobre quem é ele no capítulo III, o que dá indícios do narrador em questão: um sujeito solitário que se recusa a dirigir-se diretamente ao leitor quando trata de seus assuntos pessoais. Assim sendo, o livro revela-se quase como um diário de bordo de Jake: não faltam descrições acerca das paisagens que vê quando da viagem à Pamplona, dos bares e cafés visitados pelo grupo de amigos, ou ainda das touradas durante a fiesta. Em contrapartida, Jake pouco reflete sobre os acontecimentos que vive e que o cercam, e quando o faz, tais reflexões são chamadas por ele mesmo de “bobagens”: “Quanta tolice me passa pela cabeça, à noite. What rot!”.

Sua relação com Brett é um mistério: fica claro que Jake a ama e que ela também o ama, porém eles não podem ficar juntos. Jake foi ferido na guerra e acabou ficando sexualmente impotente, algo que é sutilmente comentado por ele durante um encontro com uma prostituta. Ela tenta tocá-lo, mas ele diz que está doente, que foi ferido na guerra, porém logo o diálogo é interrompido e Jake não volta a falar sobre o assunto. Brett e Jake conheceram-se durante a guerra: Brett era enfermeira no hospital onde Jake ficou internado após ferir-se na guerra. O modo como ele se feriu não é mencionado. Bem como o porquê de ambos não poderem ter um relacionamento. Jake evita ao máximo falar sobre Brett, até com Bill, que é uma espécie de confidente para o narrador. O papel de Bill na história restringe-se a acompanhar Jake e a ouvir as poucas coisas que o narrador se propõe a dizer.

Jake não chega nem a sentir ciúmes de Brett, pois parece estar tão desinteressado com a vida, que não consegue sentir mais. Sua narração restringe-se à descrições de paisagens e ambientes, mas fica absolutamente limitada quando o assunto é sentimento, e principalmente, quando o assunto são os seus sentimentos. Ele chega a mencionar que chorou pensando em Brett, mas isso é logo superado e sua relação com Brett fica esquecida. Brett ainda não foi tomada pela descrença na vida, pois chega a se apaixonar por Romero. Bill e Mike entregam-se à bebida e tudo o que querem é saborear os melhores vinhos. A única personagem que destoa é Robert Cohn, um romântico que anseia por viver. Como um Dom Quixote do século XX, Robert deixa-se levar pelos romances que lê e passa a ver a vida do modo mais romântico possível.

 

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Assim é O Sol também se Levanta, um romance inusitado, praticamente um diário de bordo repleto de frivolidade e distração, povoado de personagens que, como diria Wilde, apenas existem. Entre aquelas que ainda sentem alguma coisa em relação à vida, os acontecimentos da ‘vida como ela é’ fazem questão de surgir e se apoderar daquelas almas cheias de sonhos. A atmosfera de pessimismo toma conta e Jake, em sua frívola trajetória, encontra ânimo para descrever uma barata que observa:

“Enquanto esperávamos, vi uma barata no linóleo. Devia ter pelo menos 3 centímetros de comprimento e mostrei-a a Bill, antes de esmagá-la com o pé. Ficamos convencidos de que devia ter vindo do jardim, pois o hotel era realmente muito limpo.” (p. 98).

Referências:

HEMINGWAY, Ernest. O sol também se levanta. Tradução de Berenice Xavier. São Paulo: Abril Cultural, 1981.

Sabrina Ferraz. Estudante de Letras da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) – Campus Cerro Largo. Odeia descrever-se.

 

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