Não é que a Humanidade não está evoluindo, é pior: ela está caminhando para trás. Afirmar isso me frustra, porque há alguns anos eu dizia justamente o contrário. Não acreditava que algo na natureza pudesse caminhar para trás. Poderia até estacionar, mas nunca fazer o processo inverso à evolução, ao aprendizado.

E mais do que sujeitos que compõem uma sociedade, enquanto indivíduos constituídos de questões morais e espirituais somos, ainda muito infantis. E não falo aqui de religião, falo do nosso lado espiritual que é se entender como ser dotado de poder próprio para amar, para cuidar, para gerar e transformar energia, para modificar a realidade com nosso próprio pensamento, etc. Nossa visão não ultrapassa o limitado raio de nosso próprio umbigo. Lembram do discurso dos deputados no momento da votação pela aprovação ou não do processo de impeachment? “Pela minha família, pelo meu filho (a), pela minha mãe, pelo meu pai…”? É mais ou menos isso, mas aplicado ao nosso dia-a-dia.

Quer ver?

Não perdemos uma única oportunidade de falar mal de alguém ou ressaltar possíveis contraditoriedades que uma pessoa tem. Independentemente se temos – às vezes as mesmas – contraditoriedades, mas o que importa é que o outro as têm.

Quando vemos uma barbaridade na TV ou nas redes sociais, logo dizemos: “a sociedade está decadente”, “a Humanidade está perdida”, “Deus deve estar arrependido de extinguir os dinossauros” e todo aquele blá–blá-blá. Mas estamos aí, inertes, caminhando de cabeças baixas olhando para um aparelho de celular, sem compreendermos que nós somos a Humanidade. Sem assumirmos corresponsabilidade pelo que acontece neste globo terrestre. Sinto dizer-lhe, mas você e eu, nossas ações, também podem ser destrutivas nessa cadeia. Se está perdida, é porque nós somos os responsáveis também!

Vestimos roupas caras, temos sobrancelhas alinhadas, dentes branquinhos, casas bonitas e bem decoradas. No trabalho, fazemos pose e tom de voz de pessoas competentes. Tudo isso porque sabemos o quanto somos implacáveis uns com os outros quando se trata de erros, frustrações, medos, dúvidas, e outras ‘desqualificações’ comuns a todo o ser humano. A aparência é decisiva para marcarmos uma boa impressão de ‘sucesso’, e é só o que importa.

Quando ouvimos o pastor da igreja vizinha a nossa casa gritar e fazer aquela oração fervorosa, já temos um discurso pronto: “Deus não é surdo!”. Gritamos ‘aleluia’ da rua, em tom de deboche, ligamos para a polícia, enfim. Enquanto isso, não dizemos nada quando nossos filhos jovens tunam seus carros e passam pelas ruas de todo o bairro ouvindo seu sertanejo universitário a um volume que faz as janelas das casas tremerem. Aí foda-se se incomoda ou não os vizinhos – ou a cidade inteira! Ainda sobre isso, o pastor não pode gritar porque ‘existe outras formas de pregar/orar’, mas nós podemos gritar com nossas famílias! Já nos perguntamos se nossos familiares também são surdos?

Chamamos uma pessoa de mal-educada porque não disse: com licença, bom dia, por favor… mas estamos sempre armados até os dentes para ofender de puta, piranha, vadia, veado, pau-no-cu aquele que contraria nosso pensamento e opinião, principalmente se isso acontecer nas redes sociais.

Somos ainda crianças. Crianças implacáveis jogando pedras no coleguinha ‘diferente’ da escola. Crianças birrentas que não aceitam ouvir não como resposta. As crianças que fazem de conta que são adultos porque entendem de vinhos e cervejas importadas, gastronomia gourmet, moda, carros, marcas de relógios e de raças de cachorros. E que, assim, fazemos de conta que somos educados, elegantes.

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Somos crianças analfabetas de espiritualidade – ainda acreditamos em um Deus vingativo, um Deus com as mesmas características e comportamentos da espécie humana (!), que ama uns e odeia outros (!!), que dá carros e outros presentinhos para quem se comportou bem (!!!) – aqueles adesivos colados nos carros ‘foi Deus quem me deu” não lembra uma criança e sua relação com o papai noel?

Somos crianças sem pai, nem mãe: órfãs de consciência, de jogo de cintura, órfãs de compreensão, de tolerância, de maturidade, de silêncio, pois estamos sempre tagarelando coisas desnecessárias, ostentando, gritando aos quatro cantos que somos isso e aquilo.

Somos adultos infantis. E é isso que nos difere da criança em idade infantil. Porque somos crianças tolas sem nenhum tipo de inocência, sem desejo de aprender, sem altruísmo e sem pureza. E essa criança tola, sem inocência é aquela que, diante de um deslize, aponta o dedo para o amiguinho e diz: foi ele, pai! A Humanidade (perdida) é o outro. É o outro que fode com tudo. Nós não nos enxergamos na Humanidade. Nós nem sequer nos enxergamos.

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